Metroid Prime 4 Beyond chega como o grande trunfo natalício da Nintendo para a Switch e para a Switch 2. Quase duas décadas depois do último capítulo numerado, a pergunta impõe-se: a fórmula ainda resulta? Já o experimentámos na Switch 2 e contamos-te como se porta.
A aposta é clara: Metroid Prime 4 Beyond sai tanto na Switch original como na Switch 2 e procura devolver à ribalta uma saga que esteve tempo demais em pausa. Para muitos, os Metroid Prime marcaram a era GameCube e Wii durante os anos 2000. O episódio mais recente da linha principal, Metroid Prime 3 Corruption, chegou em 2007. Mesmo com outros lançamentos pelo caminho (como Other M, Dread e o remake do primeiro Metroid Prime), a vertente Prime ficou praticamente “congelada” até agora.
O conceito mantém-se tão simples quanto eficaz: um jogo de tiro na primeira pessoa centrado em atmosfera e exploração, com um design de níveis labiríntico que vai sendo “destravado” à medida que encontramos novo equipamento. Metroid Prime 4 Beyond segue esse ADN, com modernizações pelo caminho - nem todas igualmente felizes.
Metroid Prime 4 Beyond recupera o ADN clássico da série
Não é obrigatório ter terminado os três primeiros jogos para entrares aqui: a aventura funciona por si, com contexto suficiente para não deixar ninguém perdido. Após um confronto contra os piratas espaciais, a caçadora de recompensas Samus Aran acaba projetada para Viewros, um planeta enigmático, inóspito e aparentemente vazio - mas salpicado de estruturas alienígenas abandonadas há eras.
A premissa é direta e eficaz: que segredos esconde este mundo em ruínas e como escapar dele? A resposta está na exploração, na leitura do ambiente e naquele prazer típico da série em transformar silêncio e solidão em narrativa.
Atmosfera, exploração e design de níveis: onde o jogo brilha
Sem rodeios: Metroid Prime 4 Beyond é um jogo muito sólido. O que os Prime sempre fizeram bem - criar uma atmosfera densa e uma sensação constante de descoberta - volta a estar no centro da experiência. A progressão assenta em explorar espaços intrincados e ir ganhando ferramentas que mudam a forma como interagimos com o mundo.
A estrutura continua a ser a conhecida e funciona porque é bem executada: uma passagem bloqueada pelo gelo pede uma capacidade de fogo; um mecanismo trancado exige um novo tipo de ferramenta (como um laço de plasma); e por aí fora. Pode parecer “fórmula vista e revista”, mas continua a puxar pelo jogador, sobretudo quando os mapas se tornam mais complexos e a curiosidade começa a mandar mais do que o marcador de objetivo.
A variedade de cenários também ajuda a manter o ritmo: há zonas de selva, áreas desérticas, instalações alienígenas e ambientes mais agressivos, como regiões vulcânicas. Cada área tem personalidade própria e um tom distinto, o que torna a exploração menos repetitiva.
Metroid Prime 4 Beyond na Switch 2: ambição nova, utilidade discutível
A equipa da Retro Studios não se limitou a repetir a receita sem mexer em nada. Existem adições que dão outra espessura ao conjunto - nomeadamente a presença de mais personagens além de Samus, algo que ajuda a dar mais corpo à narrativa e a criar momentos menos “solitários” sem estragar o espírito da saga.
A grande novidade, no entanto, é o mundo aberto - e é precisamente aqui que a execução fica aquém da ideia. Enquanto nos jogos anteriores os mapas interligados formavam um labirinto complexo e denso, Prime 4 Beyond opta por uma abordagem mais contida: um deserto enorme e aberto onde vários “dungeons” (zonas principais) ficam espalhados.
Na teoria, abrir a estrutura Metroid a áreas muito maiores parece uma evolução natural. Na prática, esse espaço amplo acaba por soar a corredor a céu aberto: há poucos pontos de interesse realmente memoráveis e, fora alguns inimigos e dois ou três locais que valem a paragem, a sensação é de que o deserto serve sobretudo para acelerar rumo ao próximo objetivo.
A travessia é feita numa moto espacial, a Vai-o-La, o que dá dinâmica às deslocações - mas não chega para tornar o mundo aberto verdadeiramente relevante no dia-a-dia da exploração.
O melhor Metroid Prime 4 Beyond é quando te fecha lá dentro
Paradoxalmente, é quando o jogo volta a “encurralar” o jogador em áreas mais fechadas que tudo encaixa com mais força. A direção artística impressiona, e a tensão de avançar cada vez mais para o interior de uma instalação remota - por exemplo, encravada numa zona montanhosa - recupera na perfeição o clima que tornou a trilogia tão memorável.
Também há momentos que quebram a rotina da exploração solitária com sequências de jogabilidade diferentes, o que ajuda a refrescar o ritmo sem desviar demasiado do essencial. E, claro, a campanha está recheada de combates, incluindo bosses bem construídos, com padrões legíveis e espaço para aprender e reagir - sem cair em injustiças.
Controlos e mira: Joy-Con “como rato” nem sempre convence
Na Switch 2, existe a possibilidade de usar o Joy-Con como se fosse um rato para apontar. A intenção é boa, mas a sensação no uso real não é tão confortável nem tão precisa quanto seria desejável. Acaba por ser mais consistente jogar com mira no analógico e recorrer à mira automática, que se adapta melhor ao ritmo e ao tipo de confrontos do jogo.
Som e leitura do ambiente: a linguagem silenciosa de Viewros (extra)
Um dos pontos mais fortes do estilo Prime é a forma como o jogo conta história sem depender de exposição constante, e Metroid Prime 4 Beyond volta a apostar nisso. A leitura de sinais no cenário, a arquitetura alienígena e a forma como certos espaços são iluminados (ou propositadamente ocultados) contribuem para que Viewros pareça um lugar com passado - mesmo quando não há ninguém por perto.
O trabalho sonoro acompanha bem essa ideia: ruídos distantes, ecos metálicos, vento em áreas abertas e a música usada com parcimónia ajudam a manter a sensação de isolamento e mistério, que é uma das assinaturas da série.
Ritmo, longevidade e o peso de um regresso (extra)
A progressão alterna bem entre exploração, desbloqueio de equipamento e regressos a zonas anteriores com novas capacidades - o típico prazer metroidvania em primeira pessoa. Além disso, a duração é generosa, com espaço para te perderes (no bom sentido) e para ires além do caminho principal, procurando melhorias e segredos.
No final, o que fica não são tanto as inovações, mas sim a forma competente como o jogo aplica a sua fórmula histórica. Mesmo em 2025, continua a prender o jogador numa vontade quase compulsiva de ver “o que há a seguir”. Não chega a ultrapassar o impacto do Metroid Prime original (2003), mas é um herdeiro digno - e, sobretudo na Switch 2, torna-se um lançamento difícil de ignorar.
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Metroid Prime 4 Beyond - análise
- Preço: 60 €
- Classificação: 8,5/10
Pontos fortes
- Visualmente magnífico, especialmente na Switch 2
- Design de níveis bem conseguido
- Ambientes muito variados, cada um com identidade própria
- A exploração está sempre no centro e sabe recompensar a curiosidade
- Boa longevidade
Pontos fracos
- Mundo aberto com pouco interesse prático
- Mira com Joy-Con “tipo rato” pouco confortável e pouco precisa
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