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Marathon chega a 5 de março: Bungie (criadores de Halo) aposta forte no seu novo shooter de extração.

Soldado em equipamento tático transporta caixa luminosa numa passagem futurista com outros soldados ao fundo.

O estúdio que mudou para sempre o panorama dos FPS nas consolas com Halo: Combat Evolved (2002) prepara-se para jogar a sua derradeira carta com Marathon. Um lançamento muito aguardado e que, acima de tudo, é uma questão de sobrevivência para a Bungie.

Há nomes que, só por serem mencionados, despertam uma nostalgia imediata - e Bungie encaixa perfeitamente nessa lista. Que fã de FPS não associa o estúdio à armadura verde-esmeralda do Master Chief ou às planícies imensas da Instalação 04? O problema é que a história recente da Bungie não vive apenas dessas memórias: inclui também Destiny 2, um projecto onde o estúdio tropeçou com força em 2017 e cuja gestão atribulada, ano após ano, foi desgastando a confiança dos guardiões da primeira hora.

Bungie e Marathon encostados à parede: a aposta mais ambiciosa desde 2022

A realidade, hoje, é simples: a Bungie, em Bellevue, está num ponto crítico. Marathon, um projecto de grande ambição (um regresso à saga iniciada em 1994), tem finalmente data de lançamento confirmada: 5 de março, para PS5, Xbox Series e PC. É, além disso, o primeiro jogo verdadeiramente original da Bungie desde a compra pela Sony por 3,6 mil milhões de dólares, em 2022.

Depois de ter ajudado a redefinir o FPS nas consolas e de se ter queimado com o modelo de jogo como serviço em Destiny, o estúdio procura agora um novo espaço num mercado hipercompetitivo. E escolheu um dos picos mais difíceis de escalar no género: o shooter de extracção, formato que ganhou enorme tracção desde o lançamento do implacável (e excelente) Escape from Tarkov. É precisamente por isso que Marathon vai ser analisado ao pormenor: trata-se da oportunidade para a Bungie mostrar que consegue erguer um jogo com bases sólidas, sem arrastar as fragilidades técnicas e polémicas morais que marcaram Destiny 2. A pergunta impõe-se: o estúdio ainda consegue fazer jogos para jogadores - e não para relatórios trimestrais?

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Marathon: um parto difícil sob pressão financeira

O desenvolvimento de Marathon foi tudo menos linear. Com lançamento inicialmente apontado para setembro de 2025, o projecto esteve perto de ficar preso num limbo de produção. Entre uma fase alfa recebida com frieza e um caso embaraçoso de plágio visual em alguns elementos gráficos no ano passado, a imagem pública da Bungie saiu beliscada. Do lado da Sony, a impaciência foi evidente: depois de reduzir o valor contabilístico do estúdio em 204 milhões de dólares na sequência do desempenho abaixo do esperado de Destiny 2, o grupo japonês apertou o controlo.

Ainda assim, os testes mais recentes sugerem melhorias claras. Uma das decisões mais tranquilizadoras é a inclusão de voz por proximidade. Num shooter de extracção, este detalhe é mais do que “um extra”: permite combinar tréguas em cima do momento junto de uma zona de extracção ou, pelo contrário, enganar adversários para os atrair a uma armadilha. Sem isso, Marathon arriscaria perder a tensão psicológica que dá personalidade a jogos como Escape from Tarkov.

Outra medida com impacto directo no equilíbrio: a Bungie criou uma fila dedicada a jogadores a solo, reduzindo a probabilidade de um lobo solitário ser colocado contra esquadras completas de três durante o emparelhamento. Num shooter de extracção, a vantagem numérica pesa - e separar filas é uma benção para a justiça competitiva. Assim, os jogadores a solo conseguem disputar em condições mais equilibradas, sem serem rapidamente eliminados por equipas coordenadas.

Quanto ao modelo comercial, Marathon chega por 39,99 €, com pré-reservas já disponíveis (PlayStation Store, Microsoft Store e Steam). Existe também uma edição de luxo por 59,99 €, com vários itens cosméticos e moeda virtual adicional (o que faz soar, desde já, o alarme das microtransacções). O jogo terá crossplay no dia de lançamento, permitindo confrontos entre PC e consolas sem barreiras.

Para além das funcionalidades já confirmadas, há um factor que pode decidir a longevidade do projecto: a robustez da infraestrutura. Num shooter de extracção, servidores estáveis, um sistema anti-batota eficaz e uma política clara de penalizações fazem a diferença entre um ecossistema competitivo saudável e um jogo que perde credibilidade em poucos meses. Se a Bungie quiser recuperar a confiança, terá de ser transparente e rápida a reagir a falhas, exploits e desequilíbrios.

Morrer por loot: o novo credo da Bungie

Em termos de cenário, Marathon aposta num universo cyberpunk de cores saturadas, típico do estilo, mas com uma frieza atmosférica bem marcada. A acção decorre no ano 2850, num mundo onde a humanidade deixou para trás zonas sem lei repletas de tecnologia esquecida pronta a ser recuperada. O jogador assume o papel de um Runner, um mercenário cuja missão - e motivação - é infiltrar-se em áreas de risco extremo para extrair o que ainda pode ser salvo.

A base jogável assenta num modelo PvPvE: progride-se por zonas povoadas por criaturas hostis controladas por IA, enquanto outras equipas humanas circulam no mesmo mapa à procura do mesmo objectivo. Em equipas de três (ou a solo), será necessário eliminar ameaças locais e, sobretudo, sobreviver aos outros jogadores - que não hesitarão em atacar pelas costas para ficar com aquilo que encontrou. A regra é clara: se cair em combate, o equipamento fica no terreno. Mas se conseguir chegar ao ponto de extracção, mantém o saque, que por sua vez permite desbloquear equipamento mais avançado para as partidas seguintes.

Aqui, o equilíbrio económico é tão importante quanto a pontaria. A forma como o jogo distribui recompensas, risco e progressão pode transformar cada incursão numa história memorável - ou num ciclo frustrante. É também neste ponto que as microtransacções podem estragar a experiência: se a moeda virtual e os sistemas de progressão abrirem portas ao pagar para ganhar poder (à imagem do que muitos acusaram em Destiny 2), a comunidade vai reagir mal. Num shooter de extracção, a percepção de justiça é parte central do prazer de jogo.

Concorrência feroz: Marathon chega a tempo ou tarde demais?

No papel, Marathon parece ter ingredientes para resultar - mas falta perceber se não chega quando a batalha já foi travada. Ao empurrar o lançamento para 2026, a Bungie abriu espaço para um rival de peso: a Embark Studio (fundada por veteranos de Battlefield), que em outubro de 2025 lançou ARC Raiders. O resultado foi uma surpresa muito bem recebida: um shooter de extracção na terceira pessoa, elogiado por crítica e jogadores, que subiu de forma consistente até ao Top 5 dos jogos mais jogados na Steam desde o lançamento.

Com ARC já visto como um dos melhores shooters dos últimos anos, a Bungie fica no papel de desafiante, obrigada a mostrar serviço contra um gigante do género já consolidado. Se o estúdio encontrou a fórmula certa com Marathon, saberemos em breve. Caso contrário, a factura pode ser pesada: não há medalha de prata para quem chega em segundo nos shooters de extracção. E se Marathon falhar, a Bungie pode mesmo arriscar “perder as chaves da casa”, depois de custar à Sony mais do que terá rendido desde 2022. Seria um desfecho trágico para quem ajudou a definir o FPS moderno.

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