Aclamado pela crítica, escolhido em massa pelos jogadores e coroado nos Game Awards, Clair Obscur: Expedition 33 parecia acima de qualquer polémica. No entanto, o RPG francês acaba de ver dois prémios importantes revogados. O motivo: a utilização, ainda que pontual, de IA generativa durante o desenvolvimento.
Nos Game Awards, realizados há algumas semanas, Clair Obscur: Expedition 33 destacou-se como um dos grandes vencedores da noite. O jogo, produzido pelo estúdio montpellieran Sandfall Interactive, somou várias distinções de peso - incluindo o cobiçado troféu de Jogo do Ano - e foi elogiado pela direcção artística, pela narrativa e por uma identidade visual marcante. Na altura, nada indicava que a celebração pudesse vir a ser ensombrada.
Pouco depois, a obra conquistou também dois prémios nos Indie Game Awards (IGA). Só que, ao contrário de outras cerimónias mais mediáticas, os IGA são conhecidos por assumirem uma linha editorial particularmente exigente e por defenderem um entendimento ético do jogo independente. Entre as suas regras, existe uma cláusula inequívoca: proibição total do recurso a IA generativa, independentemente do tipo de utilização - uma norma explicitada de forma clara no regulamento.
Clair Obscur: Expedition 33 perde prémios nos Indie Game Awards (IGA)
O problema é que Clair Obscur: Expedition 33 não cumpre este enquadramento. A Sandfall Interactive admitiu ter recorrido a elementos gerados por IA durante a fase de produção, mais concretamente texturas temporárias usadas como apoio e referência. O estúdio sustenta que esses materiais estavam destinados a ser substituídos - e que, na prática, foram trocados -, com a excepção de alguns visuais que escaparam ao controlo interno e só foram detectados após o lançamento.
Ainda assim, para os IGA, o ponto decisivo é que tal utilização viola as regras do evento, sobretudo porque, no momento da submissão, o estúdio teria indicado não ter usado IA generativa.
A Six One Indie, organização responsável pela iniciativa, justificou a decisão nestes termos: ao confirmar-se o uso de IA generativa durante a produção, Clair Obscur: Expedition 33 deixa de cumprir os critérios de elegibilidade definidos. Apesar de reconhecerem a qualidade do jogo e de salientarem que os elementos em causa foram corrigidos, a entidade afirma que isso contraria as regras previamente estabelecidas. Por esse motivo, o comité de nomeações dos IGA decidiu retirar oficialmente os prémios de Melhor Jogo de Estreia e de Jogo do Ano.
Desta forma, as distinções anteriormente atribuídas ao jogo francês foram revogadas e entregues, respectivamente, a Blue Prince (Jogo do Ano) e a Sorry We’re Closed (Melhor Jogo de Estreia).
A situação volta a colocar no centro do debate um tema cada vez mais sensível na indústria: a transparência na utilização de IA generativa. Mesmo quando a tecnologia é usada apenas para protótipos ou materiais temporários, muitas organizações e comunidades consideram que o princípio - e não apenas o resultado final - deve orientar a avaliação, sobretudo em prémios que pretendem defender processos criativos inteiramente humanos.
Para estúdios e equipas independentes, o caso serve também como alerta prático: é essencial manter registos claros do pipeline de produção, auditar activos antes do lançamento e definir políticas internas sobre ferramentas de IA. Num contexto em que regulamentos variam de evento para evento, a forma como cada projecto documenta o seu processo pode ser tão determinante quanto a qualidade do produto final.
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