Nos últimos anos, os jogos narrativos têm tido dificuldade em reinventar-se: a Telltale Games fechou portas em 2018, a Quantic Dream deixou de lançar novos títulos de grande peso e a série Life is Strange parece estar a repetir fórmulas. Foi neste cenário que o anúncio de um novo jogo, feito por antigos elementos da Telltale (incluindo pessoas que estiveram na origem de The Walking Dead), nos despertou a curiosidade. O estúdio criou a sua própria casa - a AdHoc Studio - e regressa agora com Dispatch, lançado a 22 de outubro para PC e PS5, em formato episódico.
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Jogámos os oito episódios e saímos com uma ideia clara: há aqui uma pequena surpresa que merece atenção.
A premissa de Dispatch é sedutora, algures entre sagas bem conhecidas como Invincible e The Boys, e comédias de escritório ao estilo de The Office. Encarnas uma antiga lenda com armadura mecânica que, depois de perder os seus poderes, passa a trabalhar como operador de despacho para uma empresa chamada SDN. A tua tarefa é coordenar uma equipa de super-heróis bastante “desfeita” - emocionalmente e não só - atribuída a missões urgentes de salvamento e policiamento pela cidade de Los Angeles. Eis 3 boas razões para te atirares a esta pérola.
Uma história original de Dispatch, sustentada por escrita de topo
À primeira vista, o enredo de Dispatch pode parecer familiar, como se estivesse a reciclar ideias já vistas. No entanto, a força do jogo está na forma como a escrita transforma essa base numa exploração convincente das fricções humanas dentro de uma equipa disfuncional. Em vez de apostar numa sequência constante de combates grandiosos dignos de um blockbuster, o foco recai nos atritos, nas alianças improváveis e nas consequências emocionais - e isso torna tudo muito mais interessante.
O formato episódico também sai valorizado: Dispatch mostra que a narrativa interactiva pode funcionar muito bem por capítulos, desde que o ritmo seja bem calibrado, com momentos de pausa e aceleração colocados no sítio certo.
Os diálogos, por sua vez, soam naturais e alternam com destreza entre humor e emoção. Não cai no melodrama fácil, mas continua a ser cativante (e, em certos momentos, genuinamente hilariante). As personagens têm densidade psicológica, e essa credibilidade cresce ainda mais graças a um elenco de voz irrepreensível. Destaque especial para Aaron Paul (de Breaking Bad) como nome principal.
Um ponto adicional que ajuda a manter o interesse episódio após episódio é a forma como o jogo vai semeando conflitos e pequenas escolhas, incentivando a atenção ao detalhe. Mesmo quando a acção abranda, há quase sempre uma tensão latente - seja entre colegas, seja nas decisões que tomas sob pressão.
Uma direcção artística sublime com estética de banda desenhada
Visualmente, Dispatch impressiona. A AdHoc Studio escolheu uma linguagem inspirada na banda desenhada, com cenários estilizados e personagens muito expressivas, o que dá ao jogo uma identidade própria e imediatamente reconhecível no mercado.
A componente sonora acompanha essa visão sem a sufocar. A banda-sonora de Andrew Arcadi e Skyler Barto entra e sai com inteligência: recua durante conversas mais importantes, para deixar o texto e a interpretação respirarem, e volta a ganhar força nos momentos em que faz sentido elevar a energia.
Um gameplay que reforça a narrativa, em vez de competir com ela
Para lá das habituais conversas interactivas e das cinemáticas, Dispatch tem fases de jogo que dão verdadeiro prazer. Tal como em This is the Police, tens de atribuir os teus heróis a diferentes ocorrências, tendo em conta as competências de cada um - e também as relações (por vezes explosivas) dentro da equipa.
A ideia parece simples no papel, mas rapidamente ganha camadas: não basta escolher quem “é mais forte”. É preciso gerir tensões entre personagens, contornar incompatibilidades e, ao mesmo tempo, tirar partido do melhor que cada poder pode oferecer. Prepara-te para secções bastante ritmadas, em que a concentração faz mesmo a diferença entre correr bem e descambar.
Os mini-jogos de hacking acrescentam variedade com puzzles apelativos, sem se tornarem excessivamente complicados. E, porque nada é perfeito, há alguns QTE (quick time events) que parecem pouco essenciais. Felizmente, podem ser desactivados em poucos cliques - uma opção bem-vinda para quem prefere uma experiência mais fluida.
Também é de notar que este tipo de estrutura - gerir missões, tomar decisões e acompanhar o impacto nas dinâmicas do grupo - encaixa naturalmente no formato episódico: cada capítulo termina com vontade de ver como as relações e as responsabilidades se reorganizam a seguir.
No conjunto, ao oferecer uma experiência simultaneamente tocante, inteligente e estimulante, Dispatch deixa claro que a narrativa interactiva ainda tem espaço para surpreender.
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