A cada nova época de lançamentos, há um Call of Duty pronto a ocupar o lugar do “ritual” anual. Em 2025, a série regressa ao universo Black Ops, um dos mais acarinhados pelos jogadores. Será isto suficiente para devolver brilho a uma licença que anda a perder fôlego há tempo demais? Eis o nosso teste a Call of Duty Black Ops 7.
Há franquias que marcam o calendário como coisas inevitáveis - quase tão certas como o primeiro café do dia. Call of Duty é, sem grande discussão, uma delas.
Com Black Ops 7, chega também o habitual desfile de promessas e chavões do momento - omnimovimento, progressão unificada, cooperação em várias frentes - sempre embrulhados naquele aroma constante de guerra moderna com paranoia tecnológica. Treyarch e Raven Software venderam a ideia de um “regresso às origens” depois de anos em que muitos fãs sentiram mais frustração do que entusiasmo.
O resultado consegue recuperar o prestígio da série? Não propriamente. Por baixo do verniz do marketing e do peso de uma fórmula que já se repete demasiado, é difícil esconder a desilusão.
Campanha de Call of Duty Black Ops 7: ambição elevada… e um enredo que se desorienta
Depois da frieza mais desligada do episódio anterior, Black Ops 7 tenta recolocar o lado humano no centro, explorando o impacto de tecnologia intrusiva e de manipulação mental. Em teoria, a campanha tinha todos os ingredientes certos: uma história directa, colocada como continuação de Black Ops 2, que nos leva até 2035 para controlarmos David Mason (filho de Alex Mason, para quem acompanha a linha narrativa), agora diante de “The Guild”, um conglomerado tecno-global liderado pela carismática Emma Kagan.
A intenção aponta para um thriller psicológico com inspiração em “Inception” - uma referência apelativa à primeira vista. Na prática, o que encontramos é sobretudo um enredo confuso, que acelera a cadência de alucinações como se isso, por si só, substituísse desenvolvimento e coerência, intercaladas com tiroteios altamente guiados e cronometrados.
A variedade de cenários, isso sim, está lá: Tóquio sob vigilância, Los Angeles marcada por cicatrizes, as selvas de Angola e até uma Mediterrânea em Avalon. O problema é que, apesar de mudar o postal, a estrutura raramente foge ao mesmo molde: uma infiltração que passa depressa, combate em “corredores” e momentos de espectáculo que sabem a déjà vu.
A cooperação até 4 jogadores na campanha podia ser o elemento salvador, mas acaba por parecer mais uma camada aplicada por cima do modo a solo, sem verdadeira sinergia nem decisões com impacto real. Já o Endgame, anunciado como um “teste definitivo” numa espécie de ciclo infinito de progressão ao estilo extração, só deverá entusiasmar os fãs mais persistentes - e mesmo assim, com reservas.
Um ponto que vale referir, por ser cada vez mais central nestes lançamentos, é o peso do ecossistema à volta da campanha. Mesmo quando a narrativa tenta ganhar fôlego, sente-se a mão de um projecto desenhado para alimentar um “ciclo” mais amplo - desafios, desbloqueios e metas paralelas - o que retira espaço à sensação de aventura com ritmo próprio.
Multijogador: o ADN de Black Ops 2… transportado para 2035
Para muitos, o multijogador é o coração de Call of Duty. No lado versus, a missão de Treyarch era recuperar a rapidez e o “toque Black Ops” que ajudou a cimentar a reputação da série.
Ao lançamento, há 16 mapas 6v6, modos clássicos como Dominação e todos-contra-todos, além de um Skirmish (Escaramuça) 20v20 para quem prefere caos em grande escala. O pacote está claramente montado para puxar pela nostalgia: mapas emblemáticos como Raid e Nuketown regressam - e continuam a funcionar, com poucas rugas.
No plano técnico, é justo reconhecer competência: matchmaking rápido, netcode consistente e um sistema anti-cheat que existe, embora nem sempre pareça tão “anti” quanto o nome sugere. O novo omnimovimento (com opções como saltos em paredes e rolamentos) diverte, mas fica com um ar de acessório - não chega a transformar as partidas de forma decisiva.
O maior entrave é que o núcleo do gameplay pouco evolui. Durante algumas horas, continua a ser fácil entrar no ritmo e sentir prazer imediato, mas depressa surge a sensação de repetição. A personalização de armas, perks e scorestreaks continua a crescer, só que nem isso impede uma fadiga gradual - sobretudo porque o “grind” está cada vez mais evidente, como se a prioridade fosse prender o jogador em vez de o conquistar com ideias novas.
Também vale a pena ter atenção ao que rodeia o multijogador hoje: eventos sazonais e progressões paralelas tendem a dominar a forma como se joga e como se “vive” o título ao longo do ano. Quando a base é sólida, isso pode prolongar o interesse; quando a base não surpreende, esses sistemas podem amplificar a sensação de rotina.
Zombies: mais escala, mais camadas… e mais excesso
Falar de Black Ops sem abordar o modo Zombies é impossível - tornou-se um pilar com estatuto quase de culto. Em Black Ops 7, a palavra que melhor descreve o modo é exagero (no bom e no mau sentido).
A carta de apresentação é forte: a map “Ashes of the Damned” é anunciada como a maior alguma vez criada, cruzando duas equipas completas de heróis antigos e novos. As variantes também mostram ambição, com Survival, Cursed e Dead Ops Arcade 4, deixando claro que o estúdio quis oferecer “tudo para todos”.
O problema é que, ao tentar acumular tudo ao mesmo tempo - narrativa intrincada, desafios duros e progressão praticamente interminável - o conjunto perde legibilidade. Quem chega agora pode sentir-se perdido, e os veteranos vão provavelmente implicar com a consistência e a coerência do todo. É um modo rico e denso, mas tão carregado que o prazer simples de sobreviver ronda após ronda acaba por se desgastar.
Opinião sobre Call of Duty Black Ops 7: competente por fora, mas sem génio por dentro
Em 2025, Call of Duty Black Ops 7 representa bem um impasse típico das grandes produções AAA: há know-how, há domínio da fórmula e há polimento, mas o risco criativo é mínimo.
No lado técnico, o jogo apresenta-se com solidez: texturas cuidadas, iluminação convincente, armas com impacto sonoro e uma mistura áudio muito imersiva. Os menus e as opções de acessibilidade também merecem elogio - são, de facto, um exemplo bem construído. O ponto fraco é que esse profissionalismo vem acompanhado de uma sensação persistente de “manual de boas práticas”: campanha, progressão e até o catálogo de armas e camuflagens parecem desenhados para satisfazer expectativas, sem vontade real de surpreender.
A campanha oscila entre thriller e psicodrama repetitivo, o multijogador deverá agradar sobretudo a veteranos menos exigentes, e Zombies diverte pela extravagância - mas cansa pelo empilhamento de sistemas.
Call of Duty Black Ops 7 é um mau jogo? Não. Tal como acontece com outras séries muito bem-sucedidas, é um título que cumpre quase tudo o que promete, mas raramente abre portas novas - e deixa aquele travo de “já vi, já joguei, já esqueci”.
Um Call of Duty que já nem tenta, a sério, reinventar-se. Talvez seja mesmo altura de a mudança deixar de ser slogan e passar a ser decisão.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário