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Rússia: como o bloqueio do Roblox provocou uma inesperada revolta entre os jovens?

Jovem com placa de protesto segurando telemóvel num grupo de pessoas numa avenida urbana durante o dia.

Um gesto inesperado depois de uma aposta arriscada por parte das autoridades.

A censura online está a intensificar-se na Rússia de Vladimir Putin. Semana após semana, a notória Roskomnadzor - o “polícia” nacional do digital - continua a ordenar o bloqueio de serviços muito populares junto da população.

Roblox banido na Rússia: o novo alvo da Roskomnadzor

Na quarta-feira, 3 de dezembro, a plataforma de videojogos Roblox, que reúne cerca de 18 milhões de utilizadores na Rússia, foi proibida no país. As autoridades consideram que o serviço é responsável pela “difusão massiva e repetida de conteúdos que fazem apologia de actividades extremistas e terroristas, incentivam a praticar actos ilegais de natureza violenta e promovem temáticas LGBT”.

Apesar do bloqueio, muitos residentes conseguem continuar a aceder através de soluções improvisadas, recorrendo a VPN. Ainda assim, a decisão gerou uma reacção particularmente intensa entre os mais novos: o Kremlin admitiu ter recebido milhares de mensagens e cartas de crianças sobre o assunto. A responsável pela “censura” e influenciadora Ekaterina Mizoulina afirmou, por sua vez, ter recebido perto de 63 000 mensagens de jovens entre os 8 e os 16 anos, incluindo algumas em que ameaçam abandonar o país caso o Roblox não seja reposto.

Este tipo de medida tem também efeitos laterais no ecossistema dos videojogos: comunidades, criadores de conteúdos e pequenos programadores que dependem da plataforma para aprender, criar e partilhar projectos vêem-se, de um dia para o outro, sem acesso ao público e às ferramentas. Para muitas famílias, a consequência prática é o aumento do uso de VPN, o que levanta preocupações adicionais sobre segurança, privacidade e possíveis riscos legais num ambiente regulatório cada vez mais rígido.

Autoridades russas prontas a recuar?

A contestação acabou por se materializar numa manifestação autorizada no domingo, 14 de dezembro, em Tomsk, na Sibéria, que juntou algumas dezenas de pessoas. É um número reduzido e pouco representativo, mas trata-se de um acontecimento suficientemente invulgar para merecer destaque.

Ainda assim, a proibição do Roblox é apenas um exemplo visível de uma tendência mais ampla de controlo sobre a Internet russa. Citado pelo La Croix, Kevin Rothrock, jornalista do meio de oposição russo Meduza, enquadra a decisão desta forma:

Esta proibição insere-se numa campanha mais vasta para afastar redes online ocidentais que recolhem dados sobre os russos e que poderiam “corromper a juventude”, pelo menos do ponto de vista do Kremlin.

Num contexto em que a “soberania digital” é apresentada como objectivo político, estas restrições procuram reduzir a dependência de serviços estrangeiros e limitar canais que escapem ao controlo estatal. Ao mesmo tempo, quando as medidas atingem directamente hábitos quotidianos (como plataformas de jogos usadas por milhões), a pressão social tende a aumentar - sobretudo quando envolve menores e famílias.

Sinais de desanuviamento entre a Roskomnadzor e a plataforma

Para evitar que o episódio ganhasse dimensão, a Roskomnadzor declarou na quarta-feira, 17 de dezembro, que a administração do Roblox a contactou e demonstrou disponibilidade para tratar os conteúdos assinalados. A entidade acrescentou:

Saudamos a vontade da plataforma em cooperar e adaptar as suas actividades na Rússia. Se estas declarações não forem palavras vazias, mas um verdadeiro compromisso para melhorar a segurança das crianças online, a Roskomnadzor cooperará com o Roblox, tal como faria com qualquer outro serviço que respeite a legislação russa.

A plataforma norte-americana confirmou a intenção de rever os seus procedimentos de moderação e afirmou estar pronta a “limitar temporariamente as suas funcionalidades de comunicação na Rússia”, caso isso permita retomar o funcionamento no país.

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