O sistema de classificação PEGI vai sofrer alterações em breve, com o objectivo de se ajustar melhor aos videojogos actuais - em especial às microtransações e às mecânicas de retenção que incentivam o regresso constante ao jogo.
Criado em 2003, o PEGI (Pan European Game Information) manteve, durante anos, uma abordagem muito semelhante: uma sinalética directa, baseada em cores e símbolos fáceis de reconhecer. Essa clareza vai manter-se, mas as regras por trás das idades recomendadas vão tornar-se mais abrangentes para reflectir práticas de design modernas.
A nova classificação PEGI (microtransações e mecânicas de retenção) entra em vigor em junho de 2026
A partir de junho de 2026, a classificação passará a considerar novos factores. Entre as mudanças previstas, destacam-se:
- Mensagens online sem restrições: jogos que disponibilizem chat/mensagens sem ferramentas de controlo (por exemplo, sem permitir limitar uma conta, bloquear um utilizador, denunciar, ou silenciar) passarão automaticamente a PEGI 18.
- Missões diárias: títulos com missões diárias, muito comuns em jogos do tipo “jogo como serviço”, serão enquadrados como PEGI 7, por poderem incentivar o jogador a regressar todos os dias - um incentivo que pode contribuir para comportamentos de dependência.
- Objectos coleccionáveis e monetização associada: jogos com itens a coleccionar ligados a compras na aplicação ou NFT (para os poucos casos em que ainda existam) também serão classificados como PEGI 18.
A norma PEGI vive a maior transformação desde o seu lançamento
Esta decisão representa a alteração mais significativa do PEGI desde que o sistema foi apresentado há 23 anos. Até aqui, práticas como compras na aplicação e outras estratégias de retenção já eram assinaladas através de ícones, mas não influenciavam directamente a classificação etária atribuída.
Por outro lado, a apresentação visual do sistema não deverá mudar. A sinalética actual continua a ser simples, rápida de interpretar e eficaz para informar encarregados de educação que não acompanham de perto o universo dos videojogos.
Porque é que o PEGI precisava de se actualizar
Esta evolução era, na prática, inevitável. Em 2003, o PEGI surgiu para uniformizar a sinalética na Europa numa altura em que a violência nos videojogos era frequentemente apontada por quem não conhecia bem o meio - e títulos como GTA 3 eram alvos fáceis desse tipo de críticas. O contexto era muito diferente: missões diárias não faziam parte do vocabulário do sector, microtransações e compras na aplicação ainda não tinham ganho expressão, e os “jogos como serviço” existiam sobretudo como um nicho, muitas vezes limitado aos MMO.
Foi precisamente nesse cenário que o PEGI se tornou útil para orientar famílias através de códigos imediatos. Um grande selo vermelho num jogo (PEGI 18) era um aviso claro de que não se destinava a crianças.
Ao longo das últimas duas décadas, o sector mudou profundamente: os videojogos ganharam estatuto cultural, cresceram em popularidade e, em 2024, a indústria terá gerado mais de 180 mil milhões de dólares. Ainda assim, as polémicas recorrentes sobre violência e dependência continuam a surgir, muitas vezes de forma simplista. Um caso recente foi a declaração de Emmanuel Macron, que associou os videojogos ao aumento da violência entre jovens após o ataque em Sanary-sur-Mer. É verdade que muitos adolescentes passam tempo a mais em jogos como Fortnite, Roblox e semelhantes; contudo, responsabilizar toda uma indústria por um caso isolado sem relação directa é uma conclusão apressada. É precisamente aqui que o PEGI, ao tentar enquadrar o consumo entre os mais novos, assume um papel mais relevante.
O que isto pode significar para pais, lojas digitais e jogadores em Portugal
Com estas mudanças, é provável que a forma como os jogos são apresentados em lojas digitais e plataformas se torne mais coerente com os riscos reais associados a certas funcionalidades, como chats sem moderação ou sistemas de coleccionáveis ligados a gastos. Para os encarregados de educação em Portugal, a classificação PEGI pode ganhar valor prático adicional, sobretudo quando combinada com definições de controlo parental, limites de tempo e restrições de comunicação nas próprias consolas e aplicações.
Ao mesmo tempo, esta revisão pode pressionar estúdios e editoras a implementarem ferramentas básicas de segurança e moderação - como bloquear, silenciar e denunciar - evitando que a ausência desses mecanismos empurre automaticamente determinados títulos para PEGI 18. Isso pode ter impacto directo em públicos-alvo, campanhas de marketing e até na forma como certos jogos são concebidos desde o início.
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