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Arc Raiders: o estúdio responsável pelo jogo do momento toma decisão radical sobre a IA

Dois jovens com auscultadores numa sala de gravação, um a falar no microfone e outro a apontar para o ecrã do computador.

O estúdio responsável por Arc Raiders anunciou que vai deixar de recorrer à inteligência artificial para a dobragem e diálogos do jogo. Nas palavras do próprio desenvolvedor, a qualidade obtida não correspondeu ao esperado.

Num momento em que a inteligência artificial se infiltra cada vez mais na indústria, a sueca Embark toma uma posição clara: retirar a tecnologia do processo de vozes do jogo e voltar a trabalhar com atores em estúdio. A questão é simples: pode esta escolha criar um precedente no setor dos videojogos?

Arc Raiders e a dobragem: Embark recua no uso de inteligência artificial

Arc Raiders é um dos fenómenos recentes no panorama dos videojogos. Trata-se de um jogo de extração na terceira pessoa que conquistou elogios tanto da imprensa como dos jogadores e chegou a reunir 482 000 jogadores em simultâneo na Steam. Ainda assim, o sucesso ficou marcado por controvérsia: algumas falas ouvidas durante as partidas terão sido produzidas com inteligência artificial.

Perante a reação negativa de parte da comunidade, o estúdio acabou por anunciar o abandono dessa prática e o regresso de atores reais ao estúdio para regravar conteúdos.

Inteligência artificial nos videojogos: um tema que está longe de ser pacífico

Numa entrevista à GameIndustry, o CEO da Embark, Patrick Söderlund, explicou como o estúdio estava a abordar o tema das vozes com IA:

“Pagamos aos atores pelo tempo passado em estúdio e voltamos a chamá-los a cada atualização. Mas, para este uso específico, pagamos também o consentimento deles para usar a sua voz com IA, e isso em falas que não são essenciais para a imersão.”

Apesar desse enquadramento, o estúdio reconheceu que a resposta do público e o resultado final ditaram uma mudança de rumo:

“Regravámos algumas falas com vozes reais depois do lançamento. Há uma diferença de qualidade. Um ator profissional é melhor do que uma IA - é assim mesmo.”

IA sim, mas não para vozes: onde a Embark vai continuar a aplicá-la

A decisão não significa um adeus total à tecnologia. A Embark pretende continuar a usar inteligência artificial no desenvolvimento, mas afastá-la da dobragem. Para Patrick Söderlund, há áreas em que a IA funciona como uma ferramenta de produtividade, poupando tempo em tarefas repetitivas:

“Percebemos que tarefas como o texturizado, a gestão da luz ou a colocação de objetos eram difíceis, por isso tentámos ver se esse trabalho fastidioso podia ser eliminado. (…) Conseguimos fazer paisagens realistas usando a geração procedimental? Com uma pequena dose de IA.”

Ou seja, a IA mantém-se no pipeline - só deixa de ter voz no resultado final.

Porque é que a dobragem por IA causa tanta resistência

Mesmo que a inteligência artificial não vá desaparecer dos jogos da Embark, o estúdio dá um sinal de que o talento humano não ficará em segundo plano. E isso é relevante, porque a dobragem por IA tende a gerar contestação por dois motivos principais:

  • É um uso “visível” (ou, neste caso, audível): quando a qualidade não acompanha, a artificialidade destaca-se e torna-se intrusiva para quem joga.
  • Toca diretamente na dimensão laboral e artística: a substituição (ou potencial substituição) de comediantes profissionais levanta preocupações sobre perda de trabalho e sobre o desaparecimento do toque humano que dá credibilidade às personagens.

Há ainda um ponto prático que agrava a discussão: mesmo quando existe consentimento contratual para usar a voz com IA, nem sempre é claro para o público onde acaba a interpretação humana e onde começa a síntese, o que alimenta desconfiança e polémica.

A polémica não é exclusiva de Arc Raiders: o caso World of Warcraft Midnight e a Microsoft

Arc Raiders não é o único título a ser apontado por alegado uso de IA na dobragem. A contestação tem aumentado também em torno de World of Warcraft Midnight, que é suspeito de recorrer à inteligência artificial em vez de dobradores profissionais.

A suspeita ganhou ainda mais força depois de alguns atores históricos associados ao jogo terem renunciado publicamente aos seus papéis, criticando cláusulas relacionadas com IA que terão sido introduzidas pela Microsoft.

Um conflito em aceleração na indústria

A “guerra” em torno da inteligência artificial nos videojogos está, portanto, bem lançada - e tudo indica que ainda está no início. Entre eficiência de produção, qualidade artística e proteção do trabalho criativo, o setor entra numa fase em que cada decisão técnica tende a tornar-se também uma decisão pública e cultural.

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