A primeira vez que reparei, a minha filha estava sentada de pernas cruzadas no tapete da sala, a língua de fora numa concentração feroz, com os lápis de cera espalhados à volta como se tivesse havido ali uma pequena explosão.
Não estava a desenhar casas nem bonecos de palitos, como as outras crianças no jardim de infância. Folha após folha, insistia sempre no mesmo: círculos por cima de círculos, a entrelaçarem-se como pequenos diagramas desenhados à mão. Lembro-me de pensar “Que giro” e, sem grande cerimónia, enfiei os papéis numa gaveta, para junto de toda aquela tralha de parentalidade que juramos organizar “um dia destes”.
Meses depois, numa reunião de pais de rotina, uma psicóloga infantil que colaborava com a escola olhou para um dos desenhos, levantou ligeiramente a sobrancelha e perguntou, enquanto tocava na cadeia de círculos: “Ela faz isto muitas vezes?” Quando confirmei, sorriu com aquele ar tranquilo e seguro que nos obriga a endireitar a postura. “Tem aí uma criança muito orientada para relações.” Foi nesse momento que percebi que aqueles rabiscos aparentemente inofensivos podiam ser uma janela discreta para o mundo emocional dela. A partir daí, comecei a olhar duas vezes para cada pedaço de papel.
A forma que os psicólogos infantis não deixam de notar
Não se trata de um símbolo misterioso tirado de um manual de psicologia. É uma forma simples, quase banal: círculos. E, muitas vezes, muitos círculos. Crianças que desenham repetidamente círculos ligados, círculos com caras, círculos sobrepostos como bolhas, podem estar a fazer mais do que ocupar espaço em branco. Em muitos casos, estão a representar ligações de um modo que ainda não conseguem explicar por palavras.
Psicólogos infantis, em Portugal e noutros países, observam este padrão há anos, mesmo que nem sempre seja falado abertamente. Uma preferência marcada por formas arredondadas - em especial por círculos que se tocam ou se sobrepõem - tende a surgir com mais frequência em crianças muito sintonizadas com relações e emoções. Às vezes, a “família” aparece como um anel de círculos de mãos dadas; noutras, como um grupo de bolhas encostadas no centro da folha, quase como se estivessem a “abraçar-se”. À superfície, é só um círculo. Por baixo, pode ser uma impressão digital emocional.
Há também um motivo para o círculo aparecer tantas vezes em gabinetes de terapia e em salas de aula. O círculo não tem pontas. Passa uma sensação de segurança, de totalidade, de contenção. Crianças naturalmente sensíveis - às próprias emoções e às dos outros - parecem procurar essa suavidade para organizar o que sentem: quem está perto de quem, quem pertence aonde e onde é que elas próprias se encaixam.
Porque é que os círculos podem sugerir inteligência emocional
Costumamos imaginar a inteligência emocional em conversas longas e “maduras”, ou em crianças que dizem frases que soam quase a adultos em miniatura. Só que, nas idades mais novas, a vida emocional aparece primeiro no papel e só depois nas frases. Quando uma criança escolhe círculos vezes sem conta - sobretudo círculos encostados - muitas vezes está a comunicar algo como: “A ligação é importante para mim.” Ela pode não ter consciência disso, mas os lápis têm.
Na psicologia, fala-se de inteligência emocional como a capacidade de reconhecer sentimentos, compreendê-los e responder de forma a não “rebentar” tudo à volta. As crianças que desenham círculos sobrepostos com frequência são, muitas vezes, as que reparam quando alguém fica de fora no recreio, ou quando chegamos a casa mais calados do que o habitual. Captam o tom de voz, a micro-pausa antes de uma resposta, o facto de duas pessoas na mesma divisão evitarem o olhar. Depois, vão desenhar grupos de círculos todos a tocar-se, como se estivessem a arrumar relações no papel com a calma que não conseguem ter por dentro.
O “mapa” escondido nos desenhos
Por vezes, os sinais são surpreendentemente concretos. Uma criança pode desenhar um círculo grande com vários pequenos lá dentro e dizer que é “a minha família” ou “os meus amigos”. Outra pode criar círculos que se intersectam e explicar: “Sou eu e a avó quando estamos juntas.” Sem se aperceber, está a representar proximidade emocional através de proximidade física entre formas.
Uma psicóloga infantil contou-me o caso de um rapaz que se desenhava sempre como um círculo pequeno encaixado entre dois maiores. Chamava-lhes “círculo da mãe” e “círculo do pai”, e a si próprio “o círculo do meio”. Nos dias em que havia discussões em casa, os círculos afastavam-se na folha. Nos dias bons, sobrepunham-se tanto que quase pareciam um só. Ninguém o ensinou a fazer aquilo. Para ele, o desenho era uma linguagem mais segura do que a voz.
Aquele momento no portão da escola com um desenho amarrotado
Quase toda a gente já passou por isso: no portão da escola, alguém entrega-nos um desenho amarrotado, nós olhamos de relance, dizemos “Que bonito!” e o papel acaba esquecido no bolso do casaco, na porta do carro ou no fundo da mochila. Não é falta de carinho - é cansaço e logística. A verdade é que ninguém emoldura cada rabisco nem analisa cada boneco. A maioria de nós está só a tentar chegar ao fim do dia sem pisar peças de Lego e sem deixar a massa colar ao tacho.
Mesmo assim, no meio das pilhas de folhas, por vezes há padrões que se repetem: as mesmas personagens redondas, os mesmos círculos a “segurarem-se”, as mesmas ligações a reaparecerem. Quando este tipo de motivo surge consistentemente durante semanas ou meses, alguns psicólogos infantis dizem que pode ser um sinal discreto de consciência emocional avançada. Não é um diagnóstico. Não é um teste. É apenas uma indicação: “Esta criança sente muito e está atenta.”
Depois de reparar, é difícil “desver”. Os rabiscos deixam de parecer só desarrumação e começam a parecer estado de espírito. Há uma ternura estranha em perceber que a tua criança já te andava a dizer - em círculos e cores - o quanto se importa com as pessoas muito antes de conseguir escrever a palavra “cuidar”.
Crianças com muita inteligência emocional nem sempre são “fáceis”
Existe o mito de que crianças emocionalmente inteligentes são, por definição, calmas, ponderadas e infinitamente pacientes. Quem vive com uma dessas crianças costuma ter vontade de se rir. Estas crianças podem ser intensas. Sentem em grande. Podem desatar a chorar quando alguém é repreendido, ou ficar acordadas a ruminar uma notícia que ouviram por acaso no rádio. Os desenhos cheios de círculos e ligações podem ser, muitas vezes, uma tentativa de acalmar a tempestade interna.
Repetir a forma pode funcionar como auto-regulação. O gesto de fechar um círculo é previsível e “contido”. Fazer as mesmas curvas, uma e outra vez, pode ser tão tranquilizador como esfregar uma pedra lisa no bolso. Crianças que têm dificuldade em desligar a empatia - que absorvem o humor de toda a gente como uma esponja - às vezes precisam desse ritmo visual para sossegar o próprio sistema nervoso.
Por isso, se o teu filho passa a vida a desenhar “pessoas-bolha” sorridentes de mãos dadas, ou círculos em grupo com nomes escritos lá dentro, isso não significa automaticamente que seja uma criança “fácil”. Pode significar que está a trabalhar muito, em silêncio, para pôr ordem no que sente e no que detecta à sua volta.
Pequenas perguntas que abrem portas para sentimentos grandes
Quando começamos a notar padrões circulares, é normal termos vontade de ir directos ao assunto: “Porque é que desenhas sempre círculos? O que é que isso quer dizer?” Na prática, essa é muitas vezes a forma mais rápida de levar a criança a encolher os ombros e mudar de tema. Os psicólogos infantis sugerem perguntas mais suaves e pequenas - perguntas que não pressionam, mas que deixam uma porta entreaberta.
Podes sentar-te ao lado e dizer apenas: “Conta-me este desenho”, apontando para os círculos. Ou: “Quem é este círculo hoje?” Às vezes vem um “não sei” e está tudo bem. Noutras, aparecem respostas que nos apanham de surpresa: “Estes são os que me fazem sentir segura” ou “Este sou eu quando não tenho medo.” De repente, a forma ganha pulso.
Uma mãe contou-me que quase chorou quando o filho apontou para dois círculos que mal se tocavam e disse: “És tu e o pai quando estão zangados.” Ela não imaginava que ele tivesse percebido as discussões tardias na cozinha. Percebeu. Guardou. E depois desenhou. Crianças assim não vêem apenas o que acontece: elas registam. E, quando têm espaço e lápis, começam a mostrar com cuidado.
Ouvir sem transformar isto em trabalhos de casa
Há aqui um equilíbrio delicado. Não dá para converter cada sessão de desenho numa entrevista emocional. As crianças detectam isso a quilómetros. O segredo é manter curiosidade sem criar pressão: um comentário aqui, uma pergunta ali, e depois deixar a conversa voltar aos dinossauros, às bolachas ou ao que quer que esteja a ocupar a cabeça delas.
A ideia não é descodificar cada círculo como se fosse uma mensagem secreta. O objectivo é fazer a criança sentir que, quando partilha, é ouvida. Que o mundo interior dela - aquele que sai pelos traços e pelas cores - tem importância, mesmo quando tu ainda não o consegues entender por completo.
O que os psicólogos infantis recomendam que os pais façam mesmo (círculos e inteligência emocional)
Quando um profissional vê uma criança que adora círculos e sobreposições, a primeira orientação costuma ser simples: não entrar em pânico e não exagerar. Isto não é uma prova de que a criança vai ser terapeuta no futuro, nem um sinal de que há algo “errado”. É uma pista - um pequeno aviso gentil de que há ali sensibilidade e atenção às relações.
Muitos psicólogos infantis incentivam os pais a apoiar com leveza aquilo que já existe. Em casa, isso pode passar por dar nome às emoções com naturalidade: “Parece que estás frustrada” ou “Vejo que ficaste orgulhosa.” Pode também significar oferecer escolhas pequenas e adequadas à idade, para a criança sentir algum controlo sobre o turbilhão emocional. E, frequentemente, estas crianças florescem quando têm oportunidades concretas de ser gentis: ajudar um irmão, dar comida ao animal de estimação, escolher um cartão para alguém que esteja triste.
Também há um alerta muito actual: não transformar a competência emocional da criança numa performance. “Tu és tão sensível, és o nosso mini-terapeuta” pode soar carinhoso, mas coloca um peso que não lhe pertence. Crianças com inteligência emocional precisam de permissão para serem desarrumadas, rabugentas e absurdas. Não devem ser promovidas a conselheiras da família.
A forma não é um exame, mas pode ser uma entrada
Claro que existe o risco de ler demais um único comportamento. Há crianças que desenham círculos porque é mais fácil do que fazer quadrados. Outras estão só a imitar um desenho animado. O contexto conta, e nenhum psicólogo responsável olha para um rabisco isolado e decreta: “Inteligência emocional elevada, caso encerrado.” A vida não funciona assim.
O que se costuma sublinhar é isto: a repetição conta uma história. Uma criança que escolhe círculos vezes sem conta, sobretudo círculos que se ligam e se sobrepõem, pode estar a mostrar conforto com suavidade e com pertença. E uma criança que dá nomes aos círculos, emoções e pequenos dramas está, muitas vezes, a ensaiar sentimentos reais num palco seguro de papel.
Visto desta forma, a forma não é um teste. É uma porta. Podes passar por ela a correr, e às vezes vais mesmo ter de passar. Ou podes, de vez em quando, parar cinco minutos, pôr a chaleira ao lume e atravessar essa porta com a tua criança. Esses cinco minutos a ouvir porque é que um círculo está triste e o outro está “corajoso” podem ensinar-te mais sobre o teu filho do que uma dúzia de relatórios escolares.
Um hábito simples que ajuda: guardar, datar e observar padrões
Se te der jeito, cria um dossier (ou uma caixa) com uma selecção de desenhos, datados. Não para coleccionar “obras-primas”, mas para perceber evolução e repetições. Ao fim de algum tempo, podes notar quando é que os círculos se aproximam, quando se afastam, quando aparecem caras, quando aparecem nomes. Às vezes, essas mudanças coincidem com transições normais - início de um novo ano lectivo, chegada de um irmão, mudança de rotina - e isso ajuda-te a acompanhar sem dramatizar.
Se houver preocupações mais fortes (ansiedade persistente, alterações bruscas de humor, isolamento), estes desenhos também podem ser um ponto de partida útil para conversar com a educadora do jardim de infância ou com um psicólogo infantil. Não como “prova”, mas como material para compreender a criança com mais cuidado.
A pilha de papéis no frigorífico pode valer mais do que parece
Voltando à minha filha e às suas cadeias intermináveis de círculos: depois de perceber o que aquilo podia querer dizer, não passei a emoldurar todos os desenhos. A vida continuou caótica, a gaveta continuou a abarrotar, e eu continuei a deitar fora, sem querer, uma ou outra “obra” no meio de caixas de pizza. A parentalidade não é uma galeria impecável - é caos organizado nos melhores dias.
Mas, de vez em quando, quando ela deslizava mais um desenho para cima da mesa, eu abrandava um instante. “Quem é este círculo?”, perguntava, tocando na folha. Ela respondia como quem não dá importância: “Sou eu e tu quando estamos a ler” ou “Estes são os meus amigos quando ninguém fica sozinho.” E nessas explicações casuais - entre uma dentada na torrada e o som áspero do rádio - eu via um brilho rápido de como ela sente o mundo.
Nem todos os papéis no frigorífico têm um significado escondido. Muitos são apenas manchas e confusão, e isso é perfeitamente saudável. Mas se começares a ver, repetidamente, círculos ligados e sobrepostos, talvez estejas a olhar para algo mais do que um rabisco. Talvez estejas a ver uma criança que sente tudo com intensidade - e que já está, à sua maneira silenciosa, a desenhar esse mundo até o tornar inteiro.
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