Para muitos pais, isto pode parecer apenas devaneio, mas a prática a que as redes sociais chamam “shifting” é apresentada como algo bem mais dirigido, repetível e intenso do que simplesmente “ficar a olhar para o ar”.
O que os adolescentes querem dizer quando falam de shifting e de “realidade desejada”
Em plataformas como TikTok, Reddit e Discord, o shifting é descrito como uma passagem intencional do quotidiano para uma “realidade desejada” (um cenário mental vivido com grande nitidez). Em vez de imaginarem ao acaso, muitos adolescentes preparam um guião: delineiam regras, relações, locais e até pormenores do dia-a-dia - muitas vezes inspirados na cultura pop - e depois tentam “saltar” mentalmente para esse mundo.
Uma rapariga pode, por exemplo, construir todo um horário de Hogwarts, decidir como é o dormitório e quem faz parte do seu grupo de amigos. Outro adolescente desenha um universo em que vive noutro corpo, tem outros pais ou namora uma personagem de uma série. Durante uma sessão de shifting, descrevem sentir-se lá: atravessar corredores, ouvir vozes, tocar em objectos e mover-se como se estivesse presente.
O shifting, tal como os adolescentes o relatam, não é apenas desligar. É mais parecido com entrar numa realidade personalizada, guiada por história, à qual dizem conseguir regressar.
O elemento central, segundo os guias online, é o controlo. A ideia não é “cair” numa fantasia, mas treinar a mente para alternar da realidade actual para a realidade desejada, quase sempre deitado, com os olhos fechados, seguindo uma rotina. Muitos afirmam que conseguem escolher quando começar e quando “voltar”.
Porque é que a tendência disparou durante e depois da pandemia
Os confinamentos criaram um terreno fértil para vidas interiores mais intensas. Durante a pandemia de COVID-19, vários estudos registaram aumento do consumo de álcool e de outras estratégias de coping em adultos. Nos adolescentes, cresceram as fugas digitais: videojogos, maratonas de séries, fan fiction e, para alguns, o shifting.
Passar muito tempo em casa, a escola interrompida e uma ansiedade constante fizeram o dia-a-dia parecer vazio ou esmagador. Nesse contexto, a promessa de entrar num mundo onde se controlam o guião e as regras tornou-se especialmente sedutora:
- O stress escolar transformava-se numa narrativa de exames mágicos e pontos para as casas.
- Conflitos familiares davam lugar a “famílias escolhidas” em castelos de fantasia ou tripulações espaciais.
- O medo e a incerteza em relação ao futuro eram substituídos por mundos em que o futuro já está escrito e é seguro.
As redes sociais amplificaram o fenómeno: tutoriais, “métodos”, relatos de sucesso e vídeos em primeira pessoa circularam rapidamente. Alguns criadores descrevem “shifts” quase indistinguíveis da vigília, o que levantou dúvidas naturais em pais e profissionais de saúde.
Imaginação guiada ou algo mais? O que a ciência reconhece no shifting
Do ponto de vista neurocientífico, grande parte do shifting parece uma forma estruturada de imagética mental, combinada com absorção e sugestão. A imaginação sempre foi usada para modular emoções: desde as brincadeiras de faz-de-conta na infância até atletas que ensaiam movimentos mentalmente.
A investigação mostra que, quando imaginamos uma cena com detalhe, áreas cerebrais ligadas à percepção, emoção e movimento podem activar-se de forma semelhante à experiência real. Pessoas com elevada capacidade de absorção conseguem quase esquecer o que as rodeia enquanto lêem um romance ou vêem um filme. Quem pratica shifting parece apoiar-se nessa mesma aptidão, mas com nome, comunidade e ritual.
O cérebro não separa de forma rígida “real” e “imaginado” ao nível da actividade sensorial bruta. O que muda é o contexto, o julgamento e o controlo voluntário.
Os relatos de shifting também tocam em fenómenos psicológicos já conhecidos:
| Fenómeno | O que acontece | Possível ligação ao shifting |
|---|---|---|
| Sonho lúcido | A pessoa percebe que está a sonhar e consegue influenciar o sonho. | Muitas técnicas de shifting lembram indução de sonho lúcido, frequentemente na fase de adormecer. |
| Transe hipnótico | Atenção focada, menor consciência do exterior e imagética intensa. | Guiões, contagens e auto-sugestão no shifting são semelhantes a procedimentos hipnóticos. |
| Devaneio maladaptativo | Devaneios extremamente imersivos que interferem com a vida diária. | Alguns praticantes muito intensos podem aproximar-se deste padrão se a prática se tornar compulsiva. |
Ainda assim, nem todos os adolescentes que fazem shifting se enquadram em qualquer diagnóstico. Muitos mantêm boas notas, convivem com amigos e encaram o shifting como um passatempo - próximo de jogos de interpretação de papéis. Para estes, é como hospedar uma história interactiva dentro da própria mente.
“Suspender a descrença”: onde começam as preocupações
É comum ouvirem-se relatos de que, durante o shifting, é preciso acreditar plenamente na realidade desejada. A pessoa afasta activamente a ideia de que aquilo é imaginado - como um leitor que, num capítulo envolvente, se esquece momentaneamente de que tem um livro nas mãos. Essa suspensão de descrença intensifica a experiência e torna-a emocionalmente gratificante.
É precisamente isto que inquieta muitos adultos. Alguns pais receiam que a imersão repetida possa confundir imaginação e realidade, sobretudo em adolescentes vulneráveis por isolamento, bullying ou experiências traumáticas.
Os profissionais não alarmam com a imaginação em si; ficam atentos quando os mundos imaginados passam a ser o único lugar onde um jovem se sente seguro, valorizado ou no controlo.
Até agora, a evidência directa é limitada: shifting é um rótulo recente aplicado a competências mentais antigas, e estudos clínicos robustos estão apenas a começar. O que se observa, porém, é um padrão conhecido: jovens que se sentem impotentes no dia-a-dia tendem a investir muito em espaços onde “mandam” - seja um servidor de jogo, um fandom ou um mundo interior privado.
O que a ciência pode dizer hoje (sem dramatizar)
A neurologia e a psicologia conseguem explicar partes do mecanismo, mesmo sem quantificar todos os riscos. Quando adolescentes descrevem uma “viagem mental controlada”, é provável que estejam envolvidos vários processos:
- Processamento preditivo: o cérebro constrói modelos do mundo e actualiza-os com informação nova; no shifting, a atenção afasta-se dos dados externos e concentra-se num modelo interno.
- Traços de absorção: algumas pessoas entram mais profundamente em histórias, música e imagens, o que pode tornar o shifting mais fácil.
- Circuitos de recompensa: o alívio de escapar ao stress ou à solidão pode reforçar a prática e criar um ciclo de repetição.
- Estados de transição do sono: muitos métodos usam relaxamento ao deitar, fase em que sensações semelhantes a alucinações e imagética viva podem ser normais.
Nada disto equivale automaticamente a psicose ou a “perder o contacto”. O que preocupa especialistas é sobretudo o contexto: depressão, ansiedade, auto-agressão ou negligência. Nesses cenários, o shifting pode funcionar como véu para sofrimento mais profundo.
Quando o shifting se torna um problema: sinais de alerta
Os pais raramente precisam de um manual para perceber que algo não está bem. Ainda assim, há sinais que justificam conversar com um profissional de saúde:
- As sessões de shifting passam a dominar o dia, e o estudo, o sono ou as amizades entram em colapso.
- O adolescente insiste que o mundo imaginado é literalmente real e superior em todos os aspectos.
- Surge irritação intensa ou pânico quando é impedido de “fazer shifting”.
- Há indícios de auto-negligência, auto-agressão ou oscilações de humor muito marcadas.
Quando estes elementos aparecem, os clínicos tendem a perguntar não só sobre shifting, mas também sobre bullying, tensões familiares, condições do neurodesenvolvimento e trauma. O objectivo não é proibir a fantasia: é alargar estratégias de coping e reconstruir a ligação a actividades da vida real.
Como falar sobre shifting com um adolescente (sem gozar nem proibir)
Em muitas famílias, a reacção inicial é ridicularizar ou proibir. Regra geral, isso não ajuda. Quem pratica shifting já se sente frequentemente incompreendido, e uma resposta hostil empurra a actividade para a clandestinidade.
A curiosidade abre mais portas do que o confronto. Perguntar o que a “outra realidade” oferece ajuda a perceber o que está a faltar no quotidiano.
Perguntas que costumam desbloquear a conversa:
- “O que gostas mais nessa realidade?”
- “Há coisas lá que gostavas de ter aqui?”
- “Como te sentes quando voltas?”
- “Alguma vez é difícil parar quando queres?”
A partir daí, torna-se mais fácil falar de amizades, identidade, questões de género, pressão académica ou imagem corporal sem patologizar de imediato a prática. Se for preciso, um terapeuta familiarizado com culturas digitais juvenis pode ajudar a traduzir o jargão e a compreender os rituais.
Comunidades online e privacidade: um ponto que merece atenção
Um aspecto frequentemente ignorado é o papel da comunidade. Para alguns adolescentes, o shifting não é só experiência interna; é pertença a grupos onde existe linguagem própria, validação e comparação constante de “progressos”. Isso pode ser positivo (reduz isolamento), mas também pode aumentar pressão para “conseguir” experiências cada vez mais extremas.
Também vale a pena discutir privacidade e segurança: partilhar guiões pessoais, detalhes íntimos ou fragilidades em servidores e fóruns pode expor adolescentes a manipulação, assédio ou contactos inadequados. Combinar regras de segurança digital - sem vigilância intrusiva - costuma ser mais eficaz do que proibições absolutas.
Práticas relacionadas: do role-play ao ensaio mental
O shifting não aparece isolado. Existe num espectro de actividades em que as pessoas experimentam versões alternativas de si mesmas. Jogos de interpretação de papéis de mesa, role-play ao vivo, fan fiction e cosplay convidam os participantes a adoptar identidades e narrativas diferentes.
Na terapia cognitivo-comportamental e na psicologia do desporto, a imagética guiada é usada com frequência para ensaiar mudanças de comportamento ou melhorar desempenho. A mesma capacidade que alimenta o shifting pode apoiar a resiliência quando orientada para objectivos concretos: enfrentar uma situação temida, praticar competências sociais ou preparar testes.
Alguns terapeutas até aproveitam elementos de fandoms que os adolescentes já adoram. Imaginar como uma personagem lidaria com uma conversa difícil e depois adaptar esse “guião” à vida real pode tornar a exposição menos abstracta e mais motivadora.
Benefícios, riscos e o que pode vir a seguir
Usado de forma ocasional, o shifting pode funcionar como primeiros socorros emocionais: alivia rapidamente, oferece um laboratório para explorar identidade e pode estimular criatividade. Escritores e criadores de jogos descrevem, muitas vezes, viagens interiores semelhantes ao construir mundos e personagens.
O problema surge quando a “viagem” substitui ajustes concretos. Se um adolescente só se sente confiante como feiticeiro num castelo ou guerreiro numa nave, pode adiar mudanças que melhorariam de facto a escola, a família ou a vida social. A evasão, sem se notar, reforça a sensação de impotência.
Um caminho prático é criar limites saudáveis: proteger o sono, evitar sessões longas em dias de escola, manter actividades presenciais e diversificar estratégias de regulação emocional (exercício, rotinas, contacto social, técnicas de respiração). Assim, a imaginação continua a ser recurso - sem se tornar única saída.
A investigação futura deverá concentrar-se em três frentes: quão comum é realmente o shifting, que traços psicológicos prevêem envolvimento intenso e que intervenções ajudam quando alguém fica preso. Por agora, o mais sensato é não o tratar como dom milagroso nem como sinal automático de perturbação.
Pais e profissionais enfrentam um equilíbrio familiar: respeitar a vida interior rica que ajuda muitos jovens a atravessar anos difíceis, enquanto protegem aqueles cuja “realidade desejada” começa a parecer a única opção suportável. É provável que essa tensão aumente à medida que fandoms digitais, realidade virtual e narrativas com IA tornem os mundos interiores ainda mais fáceis de escrever e partilhar.
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