Algures no caminho até à idade adulta, o tempo para brincar vai-se apagando. Muitas vezes, trocamos a leveza e a imaginação pela seriedade e por agendas sempre cheias.
Ainda assim, há evidência clara de que os adultos beneficiam da ludicidade tanto quanto as crianças.
A investigação mostra que os adultos que se envolvem em actividades lúdicas tendem a lidar melhor com o stress, sentem mais emoções positivas, revelam maior resiliência perante desafios e indicam níveis mais elevados de satisfação com a vida.
O nosso trabalho com famílias da Nova Zelândia sublinha que apoiar a brincadeira não estruturada pode ajudar os adultos a sentirem-se menos pressionados e mais ligados entre si, ao mesmo tempo que torna a ludicidade algo normal no dia a dia familiar.
Num mundo que exige ocupação constante, a brincadeira devolve-nos qualidades essenciais que corremos o risco de perder: espontaneidade, sentido de “nós” e liberdade para nos divertirmos.
Brincar na idade adulta: o que é e como se manifesta
Brincar na vida adulta não tem necessariamente o mesmo aspecto que na infância. É menos uma questão de brinquedos ou jogos formais e mais uma forma de abordar as experiências comuns.
A brincadeira adulta pode ser física, social, criativa ou imaginativa. Pode passar por movimento, música, humor, contar histórias, resolver problemas ou, simplesmente, fazer algo pelo prazer de o fazer.
O que torna uma actividade verdadeiramente lúdica não é a sua forma, mas a atitude que a sustenta: curiosidade, abertura e disponibilidade para participar sem uma meta rígida. Para muitos adultos, a brincadeira aparece “entre linhas”, integrada em passatempos e em pequenos momentos de exploração que ficam fora do trabalho e das obrigações.
Um ponto importante é que a ludicidade não exige tempo “extraordinário”: pode caber em minutos, desde que exista permissão interna para experimentar, improvisar e rir. Micro-momentos - como transformar uma caminhada num desafio de equilíbrio ou inventar uma história enquanto se cozinha - podem reintroduzir leveza sem acrescentar carga à rotina.
Também é útil distinguir brincadeira de evasão. A brincadeira tende a ampliar a presença e a ligação (connosco e com os outros), enquanto a evasão frequentemente serve para anestesiar ou evitar. Esta diferença ajuda a escolher actividades que renovam energia em vez de a drenarem.
Os benefícios da brincadeira na vida adulta e da ludicidade
Um estudo recente aponta para uma possível via neurobiológica que liga a ludicidade à saúde cognitiva em adultos mais velhos.
Na sua essência, a brincadeira cria um espaço de reinício: permite-nos sair, por momentos, da pressão e da lógica de desempenho. Ao fazê-lo, não só apoia a regulação do stress, como ajuda a manter o equilíbrio emocional e a qualidade de vida ao longo da idade adulta.
O valor da ludicidade vai além do indivíduo. A participação lúdica em contextos sociais contribui para construir recursos emocionais partilhados, influenciando a forma como as pessoas interagem e enfrentam dificuldades em conjunto ao longo do tempo.
A ludicidade nos adultos também se associa a maior inteligência emocional, incluindo uma capacidade mais forte para reconhecer e gerir emoções em situações sociais. Estudos observacionais indicam ainda que os adultos que brincam de forma espontânea tendem a ser mais empáticos, recíprocos e positivos nas interacções com os outros, reforçando a ligação social e o sentimento de pertença.
Importa notar que a brincadeira tem uma capacidade particular de atravessar fronteiras de idade. Quando adultos e crianças brincam em conjunto - mesmo que a actividade não esteja directamente relacionada - as diferenças de idade, papel e estatuto costumam esbater-se, dando lugar ao prazer partilhado e à interacção.
A investigação sugere que estas experiências lúdicas intergeracionais podem fortalecer relações, apoiar o bem-estar e reduzir estereótipos associados à idade. A brincadeira torna-se uma linguagem comum, criando pontes entre gerações que a vida moderna muitas vezes separa.
Como o nosso trabalho evidencia, a brincadeira não estruturada continua a ser possível e significativa na vida contemporânea: as famílias referem benefícios tanto para o desenvolvimento das crianças como para a coesão familiar e o bem-estar partilhado. Estes resultados sugerem que brincar pode ser uma dimensão normal - e não excepcional - da vida familiar e comunitária.
Criar espaço para brincar no quotidiano
Se brincar é relevante ao longo de toda a vida, então os espaços que habitamos precisam de o apoiar.
No entanto, a maioria dos ambientes públicos continua a tratar a brincadeira como algo pensado sobretudo para crianças. Estudos em desenho urbano indicam que os ambientes lúdicos mais eficazes para adultos são aqueles que não se anunciam como “parques infantis”, mas que integram possibilidades de brincadeira em cenários do dia a dia.
Elementos como degraus de grandes dimensões, pedras de passagem, assentos interactivos ou percursos sinuosos podem convidar à exploração, ao equilíbrio e ao movimento. Em algumas cidades, isto vai mais longe, com componentes lúdicos em escala adulta incorporados no espaço público - por exemplo, baloiços musicais que transformam um gesto rotineiro numa interacção divertida.
Apesar destes exemplos, o desenho orientado para a brincadeira continua a ser a excepção e não a regra, mantendo-se a maioria das infra-estruturas lúdicas concentrada em áreas destinadas a crianças. Planear cidades que convidem os adultos a brincar como parte do quotidiano pode ser um investimento valioso em inclusão, ligação social e bem-estar da população.
Os ambientes que sustentam a brincadeira não são apenas físicos: são também sociais. Tal como o desenho urbano pode incentivar ou desincentivar o movimento lúdico, as normas sociais influenciam se brincar parece aceitável na vida adulta.
Quando brincar é visto como embaraçoso, indulgente ou algo pelo qual nos devemos desculpar, desaparece rapidamente. Pelo contrário, quando o comportamento lúdico é visível e tratado como normal, torna-se mais fácil para outras pessoas aderirem.
Durante muito tempo, a brincadeira foi encarada como algo separado da vida adulta, confinada à infância ou reservada a raros momentos de lazer. Contudo, a evidência indica que a ludicidade continua a contar muito para além do desenvolvimento inicial.
Reenquadrar a brincadeira como uma parte legítima da vida adulta abre novas formas de pensar o bem-estar ao longo do ciclo de vida.
Scott Duncan, Professor de Saúde Populacional, Universidade de Tecnologia de Auckland, e Melody Smith, Professora de Ciências da Saúde, Universidade de Auckland, Waipapa Taumata Rau
Este artigo foi republicado a partir da plataforma A Conversa ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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