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O remake de God of War precisa mudar urgentemente essas sequências. Seria uma vergonha se isso não acontecer!

Guerreiro com machado e correntes numa sala antiga iluminada, com estátuas e vasos decorativos.

Kratos poderá regressar às suas origens num eventual remake da trilogia clássica - mas há um pormenor polémico que corre o risco de envelhecer pessimamente.

A brutalidade sempre foi uma das marcas de God of War. Ainda assim, num remake contemporâneo, não é apenas o sangue que levanta dúvidas. As conhecidas cenas “apimentadas” dos jogos originais - encaradas como brincadeira nos anos 2000 - hoje tendem a soar deslocadas, superficiais e, por vezes, embaraçosas. Se a Sony decidir mesmo revisitar a saga grega, estas sequências não podem ser reproduzidas por inércia.

Remake de God of War e Kratos: o problema dos minijogos sexuais na trilogia clássica

Na trilogia clássica (os três primeiros títulos numerados), Kratos não se limita a desmembrar deuses e monstros: também participa em minijogos sexuais com cortesãs, servas e até com a própria Afrodite. Tudo isto era apresentado como “conteúdo adulto” e irreverente, mas construído como uma mecânica básica de minijogo baseada em botões.

De forma geral, o esquema era este:

  • O jogador encontra personagens femininas em quartos ou aposentos privados;
  • Surge uma opção de interacção, quase sempre sugerida num tom cómico ou provocatório;
  • Arranca um QTE (evento de acção rápida) em que é preciso premir botões em sequência;
  • A câmara desvia-se para lençóis, objectos a cair, estátuas e outros elementos, enquanto se ouvem gemidos;
  • No fim, o jogador recebe orbes vermelhos (nos dois primeiros jogos) ou um troféu (no terceiro).

Na era da PlayStation 2 e no início da PS3, este tipo de abordagem era vendido como um “tempero” de maturidade. Hoje, visto com olhos actuais, parece sobretudo um truque adolescente. E o problema agrava-se num remake com grafismo moderno - mais realista, mais detalhado - e com um público muito mais atento à forma como a sexualidade é representada, sobretudo quando é vazia de significado.

A narrativa de God of War evoluiu. Se um remake tratar estas cenas como antigamente, a dissonância vai saltar à vista.

Kratos mudou - e um remake não pode fingir que isso não aconteceu

Na trilogia original, Kratos é frequentemente retratado como uma força destrutiva: cruel, impulsivo e, muitas vezes, sádico. Há exemplos difíceis de ignorar: queimar um soldado vivo no Templo de Pandora, usar uma serva como “peso” num mecanismo mortal em God of War III, ou encarar quase todos os NPC como descartáveis.

Já em God of War (2018) e Ragnarok, estamos perante outra leitura da personagem. A violência continua presente, mas é acompanhada por culpa, contenção e tentativas de controlo da raiva. A relação com Atreus traz responsabilidade e afecto, e o foco desloca-se do choque visual para temas como trauma, paternidade e a possibilidade de recomeçar.

Colocar lado a lado este “novo” Kratos e os antigos QTE de sexo típicos da era PS2/PS3 criaria um choque enorme. Ao longo dos últimos anos, a Santa Monica foi consolidando uma imagem de franquia mais adulta e interessada em complexidade emocional - não apenas em provocar.

Manter minijogos sexuais rasos seria travar a evolução da série apenas para satisfazer uma nostalgia muito limitada.

Quando havia subtexto… e ele se perdeu

Há um pormenor interessante: no primeiro God of War, existia pelo menos uma tentativa de enquadramento emocional para estas “aventuras sem compromisso”. Documentos encontrados perto do leito de Kratos sugerem que ele procura no sexo um alívio desesperado para a dor de ter assassinado, sem saber, a própria esposa, Lysandra.

Quando a metáfora deu lugar ao fanservice

Com o avançar da trilogia, essa camada dramática esbateu-se. O que podia ser lido como sintoma de culpa e vazio transforma-se, jogo após jogo, numa “assinatura” repetida quase por obrigação. O registo deixa de ter sabor a tragédia grega e aproxima-se de uma piada juvenil.

Se um remake quiser dialogar com o peso narrativo de God of War (2018), não pode reciclar estes momentos como se fossem apenas um extra “picante”. Ou são profundamente revistos, ou devem ser substituídos por algo mais coerente com o percurso de Kratos.

O que o remake precisa de alterar nestas sequências

Há maneiras concretas de lidar com o legado destes minijogos sem apagar por completo a identidade da série. Eis algumas opções plausíveis:

  • Eliminar os QTE de sexo e deixar apenas referências subtis, conversas ou insinuações que reforcem a tragédia pessoal de Kratos.
  • Converter encontros íntimos em cenas narrativas, centradas em diálogo, silêncio, desconforto e conflito interno - em vez de testes mecânicos de botões.
  • Rever as recompensas: nada de orbes vermelhos ou troféus como “prémio” por sexo; a progressão deve vir do combate, da exploração ou de escolhas dramáticas.
  • Dar mais agência às personagens femininas, com objectivos, voz e impacto real na história, e não apenas uma função decorativa.
  • Tratar o passado de Kratos como ferida aberta, usando estes momentos para expor solidão, culpa e incapacidade de elaborar o luto.

A sexualidade pode existir em God of War - mas integrada na tragédia de Kratos, não como um minijogo para desbloquear um prémio.

Os riscos de manter o formato antigo num jogo moderno

Se a Santa Monica repetir, sem adaptações, o que fez em 2005, há riscos claros:

Risco Consequência provável
Percepção de sexualização gratuita Críticas negativas da imprensa e de parte do público, com impacto no lançamento
Dissonância com o Kratos moderno Sensação de existirem “dois Kratos” incompatíveis dentro da mesma franquia
Choque com padrões actuais da indústria Comparações desfavoráveis com jogos que tratam sexo com maior maturidade
Quebra de imersão O jogador passa do drama épico para o embaraço em segundos

O resultado acumulado seria um remake tecnicamente impressionante, mas preso a um período muito específico dos anos 2000 - datado no que mais interessa: o tom e a intenção.

Como estas mudanças podem enriquecer a experiência

Rever estas sequências não é “censura”; é espaço para criação. Ao trocar um minijogo por cenas mais densas, o estúdio ganha margem para aprofundar a dor de Kratos, mostrar com mais clareza a sua espiral de autodestruição e aproximar a trilogia grega do tom dos capítulos mais recentes.

Imagina um remake em que, ao aproximar-se de cortesãs, Kratos é interrompido por visões de Lysandra e da filha. Em vez de um QTE com ruído de fundo, o jogador assiste a um diálogo tenso, a um momento de recuo, ou a um acesso de raiva contida - sinais de alguém incapaz de se ligar a outro ser humano. Em termos emocionais, isso teria mais impacto do que qualquer orbe vermelho.

Além disso, uma abordagem moderna permitiria tratar intimidade como caracterização e não como “checklist”. Mesmo sem cenas explícitas, um remake pode explorar vulnerabilidade, vergonha e auto-engano - temas que encaixam naturalmente numa tragédia.

Termos e contextos que convém explicar ao público actual

Os QTE (quick time events) foram uma solução muito usada na era PS2/PS3: o jogo pede ao jogador que prima rapidamente botões indicados no ecrã para completar uma acção “cinematográfica”. Em God of War, esta lógica tanto servia para finalizar inimigos como para conduzir uma cena sexual. Hoje, o formato é muitas vezes criticado por reduzir momentos importantes a um simples teste de reflexos e por retirar agência real ao jogador.

Outro ponto é a função das orbes vermelhos como “moeda” para melhorar armas e habilidades. Ao ligar essa progressão a minijogos sexuais - mesmo que opcionais - cria-se uma relação mecânica entre evolução e recompensa sexual. Num remake, faria mais sentido associar esse avanço a feitos heróicos, descobertas, desafios de combate ou escolhas dramáticas, reforçando Kratos como guerreiro em conflito, e não como alguém definido por uma piada fácil.

Vale também lembrar que a sensibilidade do público mudou e que a classificação etária (por exemplo, PEGI) não é apenas uma questão de “ter conteúdo adulto”: é também uma expectativa de tratamento responsável. Um remake pode manter dureza e erotismo sem cair em caricatura.

Um futuro possível para a trilogia grega

Se o objectivo for reconstruir a trilogia original com a mesma seriedade aplicada a God of War (2018), estas sequências têm de ser repensadas de raiz. Não se trata de apagar o passado, mas de o reinterpretar à luz do que a franquia aprendeu - e do que o público espera hoje.

Kratos pode continuar brutal, contraditório e perturbado. O que um remake não precisa é permanecer refém de minijogos que já ficaram para trás na linguagem da indústria - e que, com grafismo moderno e outro contexto cultural, só teriam mais probabilidades de falhar.

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