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Os investigadores dizem que esta tendência está a crescer mais rápido do que o previsto.

Jovem sentado numa mesa a usar um portátil e a olhar para o telemóvel numa sala iluminada e acolhedora.

Numa manhã cinzenta de terça‑feira, numa estação de comboios dos subúrbios, acontece algo discretamente fora do habitual. Os passageiros juntam‑se em pequenos grupos, mas, em vez de se perderem a fazer scroll em feeds carregados de desgraças, vários estão a gravar vídeos curtos, a editar ali mesmo e a publicar em contas com nomes que soam mais a marcas do que a pessoas. Um adolescente de hoodie oversized entrevista um amigo sobre o stress dos exames, em câmara e no formato vertical. Dois lugares ao lado, um contabilista de meia‑idade grava um vídeo rápido sobre como preparar refeições económicas para a semana, a falar directamente para a lente com uma honestidade desarmante. E ninguém parece já achar isto chocante.

A tendência que, segundo investigadores, levaria anos a amadurecer está simplesmente… aqui. À nossa volta.

A ascensão do criador do dia a dia está a acelerar mais depressa do que qualquer previsão.

A ascensão do criador do dia a dia em todo o lado

Basta abrir qualquer plataforma social e sente‑se imediatamente a mudança. O feed já não é controlado por grandes logótipos mediáticos nem por influenciadores ultra‑polidos com vidas encenadas ao milímetro. Em vez disso, está cheio de professores a explicar temas complexos com um marcador, enfermeiros a falar sobre turnos nocturnos, reformados a testar truques de viagens baratas a partir da mesa da cozinha.

Quem estuda o comportamento digital diz que o conteúdo em vídeo gerado por utilizadores, publicado por criadores “não profissionais”, avançou vários anos face às curvas previstas. Onde se esperavam subidas graduais, aparecem picos quase verticais.

Um laboratório europeu de investigação analisou recentemente mais de 2 mil milhões de vídeos curtos em cinco grandes plataformas. O modelo inicial apontava que, até 2027, cerca de 30% do conteúdo diário consumido viria do que chamavam criadores especialistas do dia a dia - pessoas com um emprego normal e um smartphone, não um estúdio. Acontece que tiveram de rever a projecção no ano passado: a realidade já estava nos 39%.

E isto não é um fenómeno abstracto. Um motorista de autocarro de 42 anos em Manchester mantém agora um canal onde explica manutenção básica do carro. Uma educadora de infância em São Paulo publica vídeos calmos, sem edição vistosa, a mostrar como acalma crianças ansiosas. As visualizações contam‑se aos milhões. O dinheiro da publicidade chega mais devagar, mas a atenção do público mudou a uma velocidade surpreendente.

Então, porque é que aconteceu “de repente”? Uma parte é tecnologia: telemóveis mais baratos, ferramentas de edição mais simples e legendas com IA geradas com um toque. Outra parte é cansaço: o público está farto de perfeição retocada e opiniões “seguras para marcas”. Quer mãos a tremer, ruído de fundo e a confusão real do dia a dia. Quando os investigadores foram ver comentários e dados de tempo de visualização, uma ideia repetia‑se: estes vídeos “soam a alguém que eu conheço de verdade”.

A antiga fronteira entre “consumidor” e “criador” está a desfazer‑se - e isso acontece em directo, no bolso de cada um.

Criadores do dia a dia: como as pessoas se tornam criadoras sem se chamarem “criadoras”

Se perguntar a novos criadores como começaram, muitos encolhem os ombros. Dizem que estavam apenas a “partilhar o que resultou comigo” ou a “publicar para amigos”, até que as visualizações foram crescendo, quase sem darem por isso. Quase sempre existe um gesto simples na origem: carregaram em gravar enquanto faziam algo que já faziam todos os dias.

Uma enfermeira de 29 anos em Lyon começou a filmar receitas de marmitas de cinco minutos para os turnos nocturnos. Nada de sofisticado, sem luzes de estúdio. Encostava o telemóvel a um frasco de lentilhas, falava como quem envia mensagens a uma amiga e publicava no intervalo. Em seis meses, tinha uma comunidade fiel a pedir ementas semanais.

O erro mais comum é adiar até “se sentir preparado”. Planeia‑se a luz perfeita, a câmara certa, um calendário editorial e uma estratégia de marca. As semanas viram meses e nada é publicado. Entretanto, as contas que mais crescem tendem a ser as que começam mal - e vão melhorando à vista de todos.

Todos conhecemos aquele momento em que vemos alguém a fazer algo que, secretamente, queríamos ter tentado há anos, e pensamos: “Pronto, já passou o comboio.” Mas sejamos claros: quase ninguém faz isto todos os dias com disciplina impecável. A nova vaga publica por rajadas, aprende por fases, desaparece, regressa. E o público aceita.

Investigadores de um laboratório de media nos EUA resumiram a ideia numa frase certeira: “A barreira de entrada não só desceu. Psicologicamente, rachou.”

Essa rachadura abriu espaço para pessoas que nunca se viram como “pessoas de conteúdo” experimentarem, falharem e continuarem.

  • Começam a partir da vida real, não de um nicho inventado para cliques.
  • Gravem em sessões curtas e imperfeitas, em vez de planearem produções gigantes.
  • Falam para um tipo específico de pessoa, não para “toda a gente”.
  • Encaram as visualizações como feedback, não como um veredicto sobre o seu valor.
  • Permitem que o tema mude à medida que a vida muda.

Há ainda um detalhe que muitas análises deixam de lado: a normalização de criar conteúdo está a alterar a forma como lidamos com a identidade pública. Para algumas pessoas, publicar é uma extensão natural do trabalho; para outras, é uma forma de recuperar controlo sobre a narrativa - “sou mais do que o meu cargo”, “tenho algo útil a dizer”. Isto ajuda a explicar porque é que tantos criadores do dia a dia não entram com “ambição de influenciador”, mas sim com a vontade de registar, organizar e partilhar o que aprenderam.

Também surgem novas rotinas de protecção. Muitos começam por limitar comentários, evitar mostrar rostos de crianças, ocultar locais exactos e separar contas pessoais de contas públicas. À medida que a criação se torna quotidiana, crescem igualmente as literacias: o que publicar, o que guardar, como lidar com críticas, como reconhecer desinformação e como manter limites saudáveis.

O que esta tendência acelerada significa para o resto de nós

Para alguns, esta explosão de criadores do dia a dia parece apenas ruído: demasiadas vozes, demasiadas dicas, demasiadas “histórias do dia”. No entanto, por baixo do caos, existe uma mudança subtil. A experiência prática está a sair das instituições e a entrar em salas de estar, paragens de autocarro e salas de descanso. Já não é preciso uma redacção nem um contrato para um livro para influenciar a forma como milhares de pessoas cozinham, aprendem, votam ou gerem o stress.

E esta difusão não altera apenas os media. Mexe com quem sente que tem permissão para falar em público.

Ponto‑chave Detalhe Valor para quem lê
Os criadores do dia a dia estão a crescer Não profissionais geram uma fatia cada vez maior do conteúdo visto, anos antes do previsto Mostra que a sua voz pode ter muito mais alcance do que imagina
O imperfeito vence o “sobre‑produzido” O público recompensa autenticidade, contexto e experiência vivida mais do que brilho de estúdio Diminui a pressão de estar “pronto” antes de partilhar
Participar está a tornar‑se normal Criar encaixa nas rotinas diárias em vez de ser uma actividade separada e “de elite” Convida a experimentar conteúdo de baixo risco sobre o que já faz

Perguntas frequentes sobre criadores do dia a dia

  • Pergunta 1: Qual é exactamente a tendência de que os investigadores estão a falar?
    Resposta 1: Estão a acompanhar o crescimento rápido dos criadores do dia a dia - pessoas comuns a publicar vídeos curtos ou publicações, muitas vezes sem grande polimento, construídos em torno do trabalho, hobbies ou rotinas, e a atrair audiências significativas de forma discreta.

  • Pergunta 2: É preciso equipamento profissional para beneficiar desta tendência?
    Resposta 2: Não. Muitos dos perfis que mais crescem nos estudos recentes usam um smartphone normal, luz natural e ferramentas básicas de edição disponíveis nas próprias aplicações.

  • Pergunta 3: Ainda vale a pena começar agora, se o espaço parece saturado?
    Resposta 3: Sim, porque as audiências estão a fragmentar‑se em microcomunidades. As pessoas não querem apenas “uma” conta de culinária ou “uma” voz sobre carreira; querem alguém cuja vida seja, em parte, parecida com a delas.

  • Pergunta 4: Os criadores do dia a dia conseguem mesmo ganhar dinheiro com isto?
    Resposta 4: Alguns conseguem, através de receitas de publicidade, patrocínios, subscrições ou pequenos produtos. Mas o primeiro “retorno” que muitos relatam são oportunidades inesperadas: propostas de emprego, colaborações ou um perfil profissional mais forte.

  • Pergunta 5: E se tiver medo de ser julgado ou de parecer ridículo?
    Resposta 5: Esse receio é extremamente comum. Muitos criadores começaram com contas privadas ou semi‑anónimas, publicaram apenas para amigos e foram alargando o círculo à medida que a prática se tornava menos estranha.

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